Treinamento Funcional: um olhar sob a ótica evolucionária

 

Uma pesquisa rápida no Google com o termo “treinamento funcional” retorna em torno de 1.870.000 resultados, com definições e propostas variadas e, ao pesquisador leigo, pode trazer mais confusão do que esclarecimento. Não temos a pretensão de encerrar o assunto, mas nos agrada a ideia de mostrar uma perspectiva alternativa.

Para isso, talvez um olhar sob a ótica evolutiva possa nos trazer algumas informações importantes sobre o tema. Como todo ser vivo neste planeta, o ser humano passou por um longo processo de adaptação biológica (será que este processo continua acontecendo?) que nos trouxe até onde chegamos. Esta última frase, “nos trouxe até onde chegamos”, precisa ser entendida também sob a ótica cultural/tecnológica, pois nenhum ser vivo neste planeta evoluiu neste sentido a não ser o homem. E talvez seja aí que esteja o maior desafio para entendermos o que se passa em nosso corpo. Ao longo do que pode ter sido dois milhões de anos (Santurbano, 2017) o corpo humano se adaptou à sobrevivência em um ambiente totalmente desprovido de tecnologia, onde a comida era escassa e ele precisava “buscá-la” (biólogos utilizam o termo forragear) diariamente, pois não havia supermercados, delivery, restaurantes ou quaisquer coisas semelhantes. E é esta necessidade de se alimentar, para assim sobreviver e se reproduzir, que moldou o corpo tal qual ele é hoje.

Mas o que isso tem de importante em relação ao Treinamento Funcional? O fato é que um corpo que demorou milhões de anos para se adaptar a um ambiente em que ele precisava se mover muito, e por isso também descansar muito para poder se mover de novo – um ciclo exercício/recuperação – agora tem um ambiente que favorece um desequilíbrio em favor da recuperação. Passamos hoje muito mais tempo em situações de descanso do que de movimento, e este parece ser um dos fatores que nos levam às doenças de desajuste (Lieberman, 2015). Há quem diga que evoluímos para descansar, e esta conclusão está correta, porém esta equação tem dois lados: movimento (exercício) versus descanso (recuperação). E um lado da equação está sendo deixado de fora. Vivemos em ambientes que nos propiciam confortos e mimos, onde a comida chega fácil e sem quase nenhum esforço, o que é um contra-senso do ponto de vista biológico, visto que nosso corpo ainda não teve tempo para se adaptar funcionalmente aos benefícios tecnológicos que nos são impostos.

Mas estamos nos tornando mais longevos. Não seria isso uma demonstração de que nos tornamos “melhores”? Será? Qual o custo dessa longevidade? De forma breve, vale um questionamento acerca destas perguntas. Será que esta longevidade está sendo conquistada por uma melhora de nossas capacidades funcionais ou simplesmente porque a tecnologia nos disponibiliza mais meios de driblar os problemas que ela mesma gerou? Será que o desenvolvimento de tratamentos modernos, remédios eficazes e uma longevidade pautada na perda da autonomia funcional são exemplos de evolução biológica ou mais uma demonstração de uma excessiva evolução cultural que não consegue ser acompanhada lado a lado por uma evolução biológica?

 

Citando Lieberman (2013):

 

Ao não tratarmos das novas causas ambientais de doenças de desajuste, deixamos que se instale um círculo vicioso que permite à doença continuar prevalente ou por vezes tornar-se mais comum ou severa. Esse circuito de retroalimentação não é uma forma de evolução biológica porque não transmitimos doenças de desajustes diretamente a nossos filhos. Ele é, isto sim, uma forma de evolução cultural, porque transmitimos os ambientes e comportamentos que os causam.

 

Se trouxermos este raciocínio para o lado do treinamento, estamos falando de ambientes que estimulam apenas o descanso/recuperação e não propiciam os estímulos necessários para que nos movimentemos de maneira equilibrada. Ou seja, estamos nos recuperando de nada!!!

Por isso, cada vez se torna mais importante o papel dos agentes promovedores de saúde, nos quais a Educação Física se enquadra em sua atuação do ponto de vista do movimento, do Treinamento Funcional. E este baseia-se, por esta perspectiva, na recuperação dos padrões de movimentos naturais, que os seres humanos modernos vão perdendo ao longo de uma vida sedentária e, porque não dizer, preguiçosa, pois como já abordado aqui, também evoluímos para sermos preguiçosos. Portanto, entender os padrões de movimento, suas bases, e ser capaz de recuperá-los, deve ser parte do papel do professor de Educação Física. E quando falamos de recuperação, não nos referimos a lesões, mas sim a disfunções de padrões motores básicos que, se não recuperados, podem sim, levar ao surgimento de lesões. Mas que padrões motores básicos são esses? Que funções são essas? Este será o tópico de nosso próximo texto: “Abordando o Treinamento Funcional de Forma Didática”.

 

Referências:

 

Santurbano, P. Evolução e Movimentação Humana: Introdução ao Raciocínio Evolucionário na Saúde e no Movimento. 2017.

 

Lieberman, D. Is Exercise Really Medicine? Na Evoluitionary Perspective. Curr Sports Med Rep. 2015 Jul-Aug;14(4):313-9. doi: 10.1249/JSR.0000000000000168.

 

Lieberman, D. A História do Corpo Humano: Evolução, Saúde e Doença. Ed Zahar. 2013.

 

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