Abordando o Treinamento Funcional de Forma Didática

Para abordar o tema, a primeira coisa importante que precisamos entender é que falar de Treinamento Funcional é falar de movimento. E, para que haja movimento, parece ser necessário ter estabilidade, equilíbrio, controle postural, coordenação e percepção (Cook, 2010), ou ainda que as capacidades físicas importantes para se movimentar são força, mobilidade/flexibilidade, equilíbrio, coordenação motora e estabilidade postural (Teixeira et al., 2017).

Embora essas definições façam bastante sentido, vamos nos dar ao direito de olhar o assunto de forma mais simples e, como o próprio título do texto diz, bem didática. Para isso, comecemos lançando mão do conceito de joint by joint (Boyle, 2011), em que cada articulação possui uma função predominante. Se os dedos dos pés têm predominância da função de mobilidade, os pés têm predominância da função de estabilidade, o tornozelo de mobilidade e assim sucessivamente, articulação por articulação. Do ponto de vista do movimento, estas parecem ser as duas funções básicas do corpo humano, aquilo que precisa estar “funcionando adequadamente” para nos movimentarmos com qualidade.

Mas como uma função é estabelecida? Costumamos observar que há uma certa confusão em relação a isso. Talvez a explicação resida na maneira como aprendemos anatomia, com uma visão isolada das ações musculares, sem observar o corpo como um todo. Assim, é usual confundirmos ação com função, mas estas são coisas completamente diferentes. As ações musculares são necessárias para gerar as funções, mas não são a função em si. Confuso, eu sei. Vamos tentar esclarecer didaticamente.

Do ponto de vista prático vale destacar duas das quatro propriedades que o músculo possui: a contrátil e a elástica. E essas propriedades permitem a execução de três ações importantes: contração concêntrica; contração excêntrica e contração isométrica. E estas ações musculares são capazes de mobilizar ou estabilizar as articulações. Simplificando...

 As ações musculares (concêntrica, excêntrica e isométrica) são necessárias para a execução das funções articulares (mobilidade e estabilidade). Portanto, ação é diferente de função.

E o que estamos fazendo quando nos movimentarmos? Estamos estabilizando e mobilizando diferentes articulações. É claro que não é tão simples assim, pois tal estabilização e mobilização depende de um controle via sistema nervoso central (SNC). Olhemos o cerebelo, por exemplo, ele é responsável pela acurácia, equilíbrio e coordenação do movimento. Sim, o corpo humano é um intrincado sistema que se integra via SNC para gerar movimento. Mas não é o objetivo deste texto detalhar o treinamento funcional do ponto de vista neurofisiológico; isso ficará para outro momento. O que queríamos aqui era dar um olhar mais didático e simplificado baseado nas funções articulares. Sendo assim, vamos resumir...

Os músculos têm a propriedade de realizar contrações musculares que atuam sobre as articulações permitindo, deste modo, que elas manifestem suas funções de mobilidade e estabilidade. E assim o corpo se move.

Uma vez que as funções de mobilidade e estabilidade estão consolidadas, o movimento pode ser manifestado de forma balística, controlada, ritmada etc., e isto é conseguido através da expressão das capacidades musculares de gerar, força, velocidade, resistência e flexibilidade.

A partir dessa perspectiva, conseguimos criar um continuum que nos permite entender o ponto de partida para iniciarmos um treinamento que tenha uma abordagem realmente funcional. Assim, antes de nos preocuparmos se um exercício é funcional ou não, devemos nos preocupar se estamos olhando para as funções básicas necessárias ao movimento e, aí sim, traçar uma estratégia que treinará o corpo de forma funcional. Neste continuum, há a necessidade de aprimoramento da mobilidade e estabilidade, o que pode e deve ser treinado via movimento. Uma vez que o corpo se torna realmente funcional, ou seja, se movimenta com qualidade, sem disfunções de mobilidade e estabilidade, podemos evoluir para o desempenho (força, potência, resistência, velocidade, agilidade etc.) para então, quando o desempenho é alcançado, nos tornamos capazes de aprimorar habilidades diversas em tarefas esportivas mais complexas. Siga este continuum e estará treinando seu aluno/atleta de forma funcional.

 

Referências:

 

Cook, G. Movement: Functional Movement Systems. 2010

 

Boyle, M. Avanços em Treinamento Funcional. Artmed, 2015. Copyright 2011.

 

Teixeira, CVLS et al. "You're Only as Strong as Your Weakest Link": A Current Opinion about the Concepts and Characteristics of Functional Training. Front Physiol. 2017 Aug 30;8:643. doi: 10.3389/fphys.2017.00643. eCollection 2017.

 

Weineck, J. Treinamento Ideal. Manole, 1999. 9ª Edição.

 

Silverthorn, DU. Fisiologia Humana: Uma Abordagem Integrada. Manole, 2003. 2ª Edição.

 

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