[Série] Uma breve história do exercício - post 2

No Brasil, a Ginástica teve seu início de forma caracteristicamente militar (no Brasil Império) antes de experimentarmos a sua prática social (inaugurada no início do Brasil República). Assim, do leito militar, chegamos à sua adoção nas escolas públicas e, posteriormente, em outras instituições da sociedade.

 

D. MARIA LEOPOLDINA e LEOPOLDINA, MADRINHA DA GINÁSTICA NO BRASIL

 

Esposa de D. Pedro I, D. Maria Leopoldina e Leopoldina, Imperatriz-Consorte do Brasil, que era de origem austríaca, ao aportar em nossas terras, trouxe consigo cientistas e sua guarda pessoal. Estes militares (de sua guarda pessoal) praticavam exercícios ginásticos sistematicamente, que acabaram por ser adotados pelos soldados brasileiros. Dessa forma, a prática da ‘Gymnástica’ foi introduzida e gradualmente ganhou espaços em nossas forças militares. Com o início da produção do conhecimento, a partir da análise dos benefícios morais e físicos decorrentes da prática da Ginástica, a apologia em defesa desta alcança a educação infantil, por intermédio de sua introdução nas escolas. Uma das primeiras teses sobre Ginástica no Brasil, Da educação physica, intelectual e moral da mocidade no Rio de Janeiro, da sua influência sobre a saúde (1874), do médico mineiro João da Matta Machado, um dos principais apologistas de uma Ginástica com mentalidade científica, médica e higienista, é um grande exemplo disto (COSTA; PERELLI; MATARUNA-DOS-SANTOS, 2016).

 

 Fonte: https://archive.org/

 

No período considerado (séc. XIX), experimentamos como tendências pedagógicas o Sistema Alemão de Ginástica (nas escolas militares), o Método Sueco de Ginástica (nas escolas públicas) e o Método Francês (que viria suceder ambos, na preparação militar e no ensino público). Posteriormente, estes métodos viriam enfrentar o crescente prestígio da Calistenia.

 

E LÁ VEM A CALISTENIA!!!

 

Oriunda da Grécia Antiga, recuperada no final do séc. XVIII por Christian Carl André, na Alemanha, onde foi utilizada como alternativa de atividade indoor nos dias em que as condições climáticas não permitissem a prática de exercícios físicos ao ar livre (LEONARD, 1923), a Calistenia encontrou em Catherine Esther Beecher sua principal difusora nos EUA. Posteriormente, o Dr. Diocletian Lewis ou, simplesmente, Dio Lewis, médico formado pela Harvard Medical School, sistematizou e modernizou a Calistenia, introduzindo, por exemplo, a utilização da música durante a sua prática com o objetivo de ‘marcar o ritmo’ na execução dos exercícios, e não apenas acompanha-los, conforme proposto inicialmente por Beecher. A esta nova embalagem, denominou de NOVA GINÁSTICA e, posteriormente, publicou The New Gymnastics for Men, Women, and Children (1862) (LEONARD, 1923; LEWIS, 1862).

Com a fundação da primeira Associação Cristã de Moços (ACM) dos EUA (Young Men’s Christian Associantions / YMCA), em 1851, por Thomas Valentine Sullivan, este método foi incorporado às suas atividades físicas e esportivas. Alguns anos depois, William Wood, primeiro Diretor de um Ginásio (de esportes) da ACM, em Nova Iorque, adotou a Nova Ginástica do Dr. Dio Lewis em suas aulas de Ginástica. Fruto dos seus estudos e experiência prática, publicou o seu Manual of Physical Exercises (em 1867), contribuindo para a divulgação da Ginástica Calistênica de Lewis (LEONARD, 1915).

 

Fonte: https://archive.org/

 

No final do séc. XIX, mais precisamente, em quatro de julho de 1893, Myron Clark fundou a primeira Associação Cristã de Moços (ACM) da América Latina, no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro (http://acmrio.org.br/institucional/historia/), fato que viria impactar diretamente nos modelos de Ginástica vigentes, à época.  Conforme vimos em nosso artigo anterior, essa instituição possuiu um papel fundamental no desenvolvimento da Calistenia (Ginástica) no mundo e, em nosso país, especialmente no que tange às aulas coletivas nas atuais Academias de Ginástica. Assim, a Nova Ginástica de Lewis, repaginada por Wood e enriquecida com as significativas contribuições metodológicas de Robert Roberts e William Skarstrom, chega ao Rio de Janeiro, por intermédio da ACM (CANTARINO FILHO, 1988 in FARIA JUNIOIR, 2014; LEONARD, 1923; LEONARD, 1915 MARINHO, 1980). Dessa forma, os ginásios, estúdios e escolas de exercícios físicos (as Academias de Ginástica da época) foram invadidos pelo Método Calistênico (COSTA; PERELLI; MATARUNA-DOS-SANTOS, 2016).

 

COM O SURGIMENTO DAS ACADEMIAS DE GINÁSTICA, ‘NASCE’ A

GINÁSTICA BRASILEIRA

 

Com o surgimento das Academias de Ginástica, entre as décadas de 30 e 40, a Calistenia (junto ao Método Sueco) predominou nesses espaços (NOVAES, 1991), e encontrou como principais divulgadores os professores Inezil Penna Marinho, Joaquim José da Silva Ribeiro Junior, N. Pithan e Silva e Cássio Rothier do Amaral. Devido ao sucesso alcançado por esta, na década de 60, a Calistenia passou a fazer parte do currículo da Escola Nacional de Educação Física (atual Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro – EEFD/UFRJ), considerado “currículo padrão” para as demais Escolas de Educação Física existentes no país, à época (FARIA JUNIOIR, 2014).

Cabe ressaltar o nome do professor Inezil Pena Marinho, considerado UM DOS GRANDES da Educação Física do Brasil. Convicto da necessidade de criação e consolidação de um Método Nacional de Educação Física, propôs uma Ginástica eminentemente nacional baseada nos movimentos da Capoeira, atividade tipicamente brasileira e, epistemologicamente, de múltiplo entendimento: um misto de exercício físico, arte, luta e dança. Aspirava, principalmente, a adoção do seu método nas escolas. Inezil criou e divulgou, mas, apesar dos elogios e reconhecimento ao seu trabalho, por motivos diversos, não conseguiu a aceitação e consolidação do seu método (COSTA; PERELLI; MATARUNA-DOS-SANTOS, 2016, p.69).

A partir da década de 70, com a adição de novos recursos materiais e a influência das metodologias de treinamento com pesos (métodos de treinamento de força), esse novo modelo passou à denominação de Ginástica Localizada, que se mantém até os nossos dias (COSTA, 1996; COSTA, 1998) todavia, incrementado, é bem verdade, mas, isto fica para o nosso próximo artigo de UMA BREVE HISTÓRIA DO EXERCÍCIO FÍSICO - Série Ginástica.

Por fim, faz-se importante destacar a importância que a Editora Sprint teve no desenvolvimento da Ginástica, ao publicar, a partir da década de 80, os primeiros e principais livros que viriam fundamentar o modelo carioca de Ginástica, que influenciou e influencia as salas de Ginástica do nosso país. Abaixo, destacamos alguns dos seus principais títulos:

Ginástica de Academia (CONTURSI, 1986)

Ginástica de Academia: métodos e sistemas (NOGUEIRA, 1987)

Ginástica de Academia no Rio de Janeiro: uma pesquisa histórico-descritiva (NOVAES, 1991)

Ginástica Localizada: teoria e prática (GERALDES, 1993)

Aeróbica e Step: bases fisiológicas e metodologia (JUCÁ, 1993)

Manual de Ginástica de Academia (SANTOS, 1994)

Step Aeróbico e Localizado (MALTA, 1994)

Ginástica Localizada (COSTA, 1996)

Ginástica de Academia: teoria e prática (NETO; NOVAES, 1996)

Ginástica Localizada: grupos heterogêneos (COSTA, 1998)

Personal Training & Condicionamento Físico em Academia (NOVAES; VIANNA, 1998).

 

REFERÊNCIAS

 

COSTA, M.G. Ginástica Localizada. Rio de Janeiro: Sprint Editora, 1996.

COSTA, M.G. Ginástica Localizada: Grupos Heterogêneos. Rio de Janeiro: Sprint Editora, 1998.

COSTA, M.G.; PERELLI, J.M.; MATARUNA-DOS-SANTOS, L.J. História da Ginástica no Brasil: da concepção e influência militar aos nossos dias. Navigator: subsídios para a história marítima do Brasil. Rio de Janeiro, V. 12, no 23, p. 63-75, 2016.

FARIA JUNIOR, A.G. Os currículos de Educação Física e o ensino por unidades didáticas. Corpussci. Rio de Janeiro, v.1 0, n.2, p.1 6-3 2, jul-dez 2014.

LEONARD, F.E. Pioneers of Modern Physical Training. 2ª ed. New York and London: International Committee of Young Men’s Christian Associations, 1915.

LEONARD, F.E. A Guide to the History of Physical Education. Philadelphia and New York: Lea & Febiger, 1923.

LEWIS, D. The New Gymnastics for Men, Women, and Children. Boston: Ticknor and Fields, 1862.

MARINHO, I.P. Sistemas e Métodos de Educação Física. São Paulo: Papelivros, 1980.

NOVAES, J.S. Ginástica de Academia no Rio de Janeiro: uma pesquisa histórico-descritiva. Rio de Janeiro: Sprint Editora, 1991.

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