[Série] Uma breve história do exercício - post 3

Fonte: Biblioteca Nacional.

 

RUY BARBOSA, O PALADINO DA GINÁSTICA BRASILEIRA

 

A Educação Física sempre contou com o apoio de intelectuais de peso. A expansão da Ginástica e sua consequente inclusão como disciplina obrigatória nas escolas da Corte, por exemplo, encontrou em Ruy Barbosa um grande entusiasta e forte defensor da prática escolar da mesma (LIMA, 2012; MARINHO, s/a). Jurista, advogado, político, diplomata, escritor, filósofo, jornalista, tradutor e orador, Ruy foi um dos intelectuais mais brilhantes do seu tempo, e um grande defensor e amante da Educação Física. Junto à Pedro Manuel Borges (talvez, autor do primeiro livro brasileiro de Ginástica – Manual Theorico-Pratico de Gymnastica Escolar, 1888), firmou importante posição em defesa da obrigatoriedade da Educação Física nas escolas (leia-se Ginástica). Também no final do séc. XIX, encontramos outra publicação muito importante, de autoria de Arthur Higgins: Compêndio de Ginástica e Jogos Escolares (1896). Estes dois livros deram grande suporte ao desenvolvimento da Ginástica nas escolas, firmando o seu fundamento pedagógico.

 

 

PIONEIROS NA GINÁSTICA

 

A valorização da Ginástica como uma poderosa ferramenta de educação, estimulou o surgimento de outros modelos de espaços destinados à sua prática. Os Ginásios, Estúdios e Escolas de Ginástica dessa época (entre as décadas de 30 e 40), viriam nos revelar o nosso atual modelo das Academias de Ginástica. Nestes espaços, carregando um pouco da influência dos métodos Sueco, Francês e Alemão que por aqui se revezaram, a Calistenia predominou, e nos revelou grandes nomes. Para além dos precursores Inezil Penna Marinho, Joaquim José da Silva Ribeiro Junior, N. Pithan e Silva e Cássio Rothier do Amaral, citados em nosso encontro anterior, particularmente, entendo que cabe destacar duas brasileiras pioneiras: Yara Vaz e Lígia Azevedo, que encantaram com seus trabalhos de Ginástica Feminina e contribuições metodológicas significativas. Segundo o seu depoimento pessoal, Lígia avoca para si ter sido a introdutora da Ginástica Aeróbica no Brasil, método de Ginástica criado a partir da influência do Método Cooper de Treinamento Aeróbico (NOVAES, 1991). Outros grandes nomes que merecem registro são os dos professores Álvaro Barreto, Henrique Ibéas e João Gaspar, que ecoaram com força nas gerações subsequentes.

 

OS IMPACTOS DA GINÁSTICA AERÓBICA

 

Como que parte do DNA carioca, a Ginástica desenvolveu um repertório corporal fabuloso, ganhando riqueza de movimento e beleza estética singular. Os novos recursos materiais e métodos de aula contribuíram para isso, todavia, a criatividade dos professores sempre foi o seu diferencial. Em linhas gerais, suas aulas eram organizadas em quatro etapas: Aquecimento – Exercícios Aeróbicos – Exercícios Localizados – Relaxamento, como propôs originalmente Lígia Azevedo (NOVAES, 1991). Aqui, observamos a substituição do termo exercícios calistênicos por exercícios localizados, terminologia que viria predominar nos anos 80/90.

Na década de 90, a Ginástica Aeróbica (surgida nos EUA) invadiu o Brasil, substituindo os exercícios de corrida pela sala e saltitamentos pela aeróbica de alto e baixo impacto. De início, as aulas continuaram com a estrutura acima, todavia, com o crescimento da Ginástica Aeróbica assumindo passos e características de dança, as aulas de Ginástica foram substituindo o aquecimento aeróbico por um aquecimento com exercícios localizados, estabelecendo a Ginástica Localizada. Considero como grandes responsáveis para a consolidação deste ‘novo modelo’ os professores Écio Nogueira, Amândio Geraldes, Jefferson Novaes, Pavão Lima, Marco Otávio, Murilo Elbas e Robson Nascimento, com suas publicações, cursos e contribuições metodológicas.

 

O COMPONENTE FORÇA NA GINÁSTICA

 

Neste período, os exercícios localizados eram desenvolvidos predominantemente sob a forma de Resistência Muscular Localizada (RML), com um elevado número de repetições por série, exercício ritmado pela música e música com velocidade rápida (do que chamamos batimento musical por minuto ou BPM musical), ou seja, cadência acelerada. Motivado pelas primeiras publicações nacionais relacionadas à Musculação (Treinamento de Força), dos professores Nelson Bittencourt (Musculação: uma Abordagem Metodológica, 1984) e Carlos Eduardo Cossenza & Paulo Eduardo Carnaval (Musculação: Teoria e Pratica, 1985), pelas primeiras publicações nacionais relacionadas à Ginástica (de Academia), dos professores Murilo Elbas & Pavão Lima (Ginástica de Academia, 1985) e Écio Nogueira (Ginástica de Academia: Métodos e Sistemas, 1987), e pelos questionamentos e incentivo de dois colegas com quem tive a oportunidade de trabalhar, os professores Ângelo Dias e André Leta, amigos de longa data com quem partilhei momentos profissionais na Corpore Academia (uma das primeiras Redes de Academias de Ginástica do Brasil, junto com a Runner, de SP), nos anos 2000, deixei minha colaboração ao propor a ampliação das formas de se treinar a força na Ginástica Localizada, alargando o seu treinamento para além da RML, ao incorporar o treino contra resistência com intensidades mais altas, em alguns momentos inclusive, voltado para a Força Máxima e Hipertrofia Muscular (para além dos trabalhos mais usuais voltados para a Força Dinâmica e a Potência Muscular). Por envolver a movimentação corporal livre, obviamente, os limites de sobrecarga experimentados na Ginástica são inferiores aos alcançados nas salas de Musculação, todavia, seus resultados, muito significativos. Esta proposição foi apresentada no meu primeiro livro, Ginástica Localizada (1996), acompanhada de uma estrutura racional de planejamento e métodos de treinamento aplicados à organização das aulas e processo de treinamento, na Ginástica.

 

 

Livro: Ginástica Localizada, Marcelo Gomes da Costa, Sprint Editora, 1996.

 

‘SURGEM’ OS EXERCÍCIOS FUNCIONAIS

 

Novas modalidades de Ginástica foram surgindo e outras se consolidando, como: Step, Ciclismo Indoor, Alongamento, Hip Hop, Ritmos, Jump, Running e Pilates Solo, para citar apenas as mais populares. Via de regra, estas caracterizam-se de forma mais significativa por predominar algum dos três componentes de treinamento da aptidão física relacionada à saúde, qualidade de vida e bem-estar: Componente Cardiorrespiratório; Componente Musculoesquelético relacionada à Força Muscular e; Componente Musculoesquelético relacionado à Mobilidade Articular. Nos últimos anos, experimentamos a invasão de outro componente para além destes três, mais voltado para as qualidades físicas de habilidade motora, como a Coordenação Motora, o Ritmo e o Equilíbrio. Adicionado a estas valências físicas, elementos como o maior estímulo ao Controle Motor (Propriocepção, Qualidade de Movimento) e a ‘Força de Sustentação’ dos músculos da região denominada de CORE (mais comumente entendida como a região compreendida entre o músculo diafragma e o assoalho pélvico), surge o conceito do Treinamento Funcional. Podemos até entender este como um conceito novo (o melhor seria aperfeiçoado e com roupagem nova), todavia, as imagens do livro abaixo, Álbum de Ginástica da Gurisada: Método de Ginástica Rítmica e Corretiva, de Polly Wettl, publicado em 1934, nos mostram que nem tanto.

 

 

Fonte: Biblioteca Nacional.

 

A bem da verdade, os exercícios funcionais há muito integram a Ginástica (desde os seus primórdios), tendo sido categorizados e sistematizados pelo Método Natural Francês. No Brasil, dois grandes nomes se destacam como precursores deste modelo funcional desde a década de 90: os cariocas Orlando Cani e Álvaro Romano que, com suas metodologias que incorporam inúmeros métodos ginásticos, de expressão corporal e suas experiências esportivas, inovaram nessa direção: a movimentação corporal mais natural, fluida e harmônica. O fato é que este novo componente da aptidão física relacionada à saúde, qualidade de vida e bem-estar, o Componente Neuromotor (CN), cada vez mais encontra-se incorporado às aulas de Ginástica (não sei se caberia mais o termo adjunto, Localizada). Inclusive, o mais correto é dizer que este CN foi reforçado, consagrado (ao invés de incorporado), pois a Ginástica sempre carregou fortes características funcionais.

Nos últimos tempos, a Tecnologia tem criado dispositivos que podem propor novas abordagens na Ginástica, e algumas questões emergem: estes recursos invadirão as Aulas Coletivas (termo mais atual que define as modalidades de Ginástica)? Como? Que novas possibilidades poderemos incorporar? Este será o tema do nosso último e próximo artigo de UMA BREVE HISTÓRIA DO EXERCÍCIO FÍSICO - Série Ginástica, portanto, não perca!!!

Por fim, aproveito para registrar o nome de alguns profissionais de Ginástica que considero como referências nas diversas modalidades de aulas coletivas, por suas valiosas contribuições. Com alguns, tive a oportunidade de compartilhar momentos de grande alegria e enriquecimento profissional, nas Academias de Ginástica, Universidades, Cursos, Simpósios e Congressos. São eles:

Álvaro Romano • Amândio Geraldes • André Fernandes • André Ibeas • Andrea Deslandes • Ângelo Dias • Beto Potyguara • Bruno Lima • Cesar Parcias • Cid Queiroz, Cidinho • Cida Conti (SP)• Claudia Castro • Claudio Reis, Cocada • Carlos Roberto, Coutinho • Écio Nogueira • Edison Figueiredo • Edson Gonçales, Edinho • Eduardo Netto • Fabio Amed • Fabio Maranhão (in memoriam) • Fabio Saba • Felipe Barboza • Fernando Vieira, Fofão • Gil Lopes (SP) • Gilberto Gomes (SP) • Glorinha (in memoriam) • Inelia Garcia • Jefferson Novaes • João Carlos de Jesus • João Luiz Tinoco • José Carlos Rodrigues, Gaúcho • José de Anchieta (RS) • Junior Carvalho • Laerte Sapucahy • Lauro Ivo • Luiz Claudio Fortunato • Marcia Miziara • Marco Otávio • Marco Santos • Marcos Jucá • Marcos Silva, Marcão • Mauro Guiselini (SP) • Mônica Tagliari (SP) • Murilo Elbas • Murilo Guerra • Orlando Cani • Paulo Henrique, Paulinho • Paulo Akiau (SP) • Paulo Ayres (RS) • Paulo Henrique (SP) • Paulo Malta • Pavão • Raul Pereira • Renato Ramos • Robson Nascimento • Roberson Magalhães (MG) • Robertinho Mesquita • Roberto Toscano (SP) • Robinson Kennedy (SP) • Rogério Marques • Rogério Rothe • Rover Lima • Sergio Orofino • Sergio Santos • Silvinho Prazeres • Sonia Santos • Tatiana Sanches (SP) • Toni Campos • Tony Maciel • Vinícius Veiga • Wilsinho Germano (SP).

 

REFERÊNCIAS

 

COSTA, M.G. Ginástica Localizada. Rio de Janeiro: Sprint Editora, 1996.

COSTA, M.G. Ginástica Localizada: Grupos Heterogêneos. Rio de Janeiro: Sprint Editora, 1998.

COSTA, M.G.; PERELLI, J.M.; MATARUNA-DOS-SANTOS, L.J. História da Ginástica no Brasil: da concepção e influência militar aos nossos dias. Navigator: subsídios para a história marítima do Brasil. Rio de Janeiro, V. 12, no 23, p. 63-75, 2016.

LIMA, R.R. Para compreender a História da Educação Física. Educação e Fronteiras On-Line, Dourados/MS, v.2, n.5, p.149-159, maio/ago, 2012.

MARINHO, I.P. História da Educação Física no Brasil. Rio de Janeiro: Cia. Brasil Editora, s/a.

NOVAES, J.S. Ginástica de Academia no Rio de Janeiro: uma pesquisa histórico-descritiva. Rio de Janeiro: Sprint Editora, 1991.

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