Falha técnica: uma opção inteligente para o treinamento de força

 

Elaborar um bom programa de treinamento de força envolve entender o efeito que cada variável componente deste tem sobre o resultado final. A carga utilizada, o número de repetições, o número de séries, o intervalo entre as séries, a frequência semanal, a velocidade do movimento, o tipo de exercício, a ordem dos exercícios, são todos fatores que devem ser considerados e selecionados de acordo com os objetivos do aluno/atleta no curto e no longo prazo. (Suchomel et al. 2018)
Outro ponto que deve ser considerado na elaboração do programa de treinamento de força é se o aluno/atleta atingirá ou não a Falha Concêntrica, definida como a incapacidade momentânea de se realizar a repetição com o arco de movimento completo devido à fadiga. O racional de tal conduta é que assim consegue-se um maior recrutamento de unidades motoras e dessa forma maiores ganhos em força. (Davies et al. 2015)
Apesar do conceito de treinar até a falha concêntrica ser altamente difundido entre os treinadores de força (em especial pelos treinadores de fisiculturismo já que os de LPO e de levantamento básico utilizam a prescrição por % de 1RM em geral), a literatura parece não apontar para uma superioridade de tal estratégia, como mostra uma meta-análise recente (Davies el al. 2015). Os autores ainda sugerem que o treinamento até a falha concêntrica pode aumentar os riscos de sobretreinamento e lesão.
Vamos imaginar que estamos realizando um levantamento terra e que o treino programado pede que façamos a maior quantidade de repetições possíveis com a carga (falha concêntrica). O natural é que na medida em que as repetições vão acontecendo e a fadiga vai se instalando, o sistema busque maneiras de manter o trabalho sendo realizado, o que implica em desvios na técnica. No exemplo em questão, a capacidade de manter a coluna estável e sem grandes movimentos vai diminuindo na medida em que os músculos estabilizadores vão cansando. Nesse momento ocorre o que eu chamo de FALHA TÉCNICA (incapacidade de manter o movimento em questão utilizando a técnica correta por toda a amplitude). O problema é que apesar da falha técnica muitas vezes ainda não atingimos a falha concêntrica e assim a série continua, porém agora com um movimento inadequado.
Quando o exercício realizado é simples, muitas vezes a falha técnica não implica em grande problema para o aluno/atleta, mas quando o exercício utilizado é complexo (agachamento, supino, levantamento terra, movimento de LPO, etc.) o erro na execução pode produzir uma lesão. Por esse motivo chamo tais exercícios de Tarja Preta.
Minha proposta então é, para tais movimentos, utilizar não a falha concêntrica para determinar o ponto de interrupção da séria, mas a FALHA TÉCNICA. Considerando que a literatura não suporta a necessidade de se ir à falha concêntrica para que se obtenha ganhos em força e hipertrofia, somado ao risco de lesão de se realizar exercícios complexos sem a técnica adequada, a FALHA TÉCNICA parece ser um opção mais inteligente de abordar o treinamento de força, especialmente no longo prazo.
No exemplo utilizado acima o treinador estaria atento o tempo todo à técnica realizada por seu aluno/atleta e ao sinal de que a integridade do sistema musculoesquelético está ameaçada (no levantamento terra a falha técnica mais comum é a perda da estabilidade da coluna o que compromete a segurança desta) daria o comando para a interrupção do trabalho.
Cabe aqui ressaltar que indivíduos treinados e que buscam o constante aprimoramento técnico nos exercícios de força apresentam a falha técnica muito associada à falha concêntrica. Seja paciente, dedique-se à melhora da execução dos movimentos, dessa forma você irá garantir o sucesso de seus programas de treino tanto para o desempenho quanto para a segurança dos seus alunos/atletas no longo prazo.

Davies T, Oor R, Halaki M & Hacket D. Effects of training leading to repetition failure on muscular strength: a systematic review and meta-analysis. Sports Med published online 14 Dec 2015
Suchomel TJ, Nimphius S, Bellon CR & Stone MH. The importance of muscular strength: training considerations. Sports Med published online 25 january 2018

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Posts Em Destaque

Comportamento Sedentário, Saúde e Obesidade

January 31, 2019

1/4
Please reload

Posts Recentes
Please reload

Arquivo
Please reload

Procurar por tags