Comportamento Sedentário, Saúde e Obesidade

 

 

Ano após ano vemos os meios de notícias alertarem sobre os enormes índices de obesidade na população mundial. Dois são os fatores que parecem primordiais para o aumento da massa corporal (o popular peso corporal): má alimentação e sedentarismo. Como professor de Educação Física, devo me ater, do ponto de vista técnico, à análise e controle do sedentarismo. Porém, obviamente, que sempre procuro parceria dos colegas nutricionistas para vencer a batalha contra o ganho de peso.

Quando pensamos em exercício físico para combater a inatividade e, consequentemente, buscar o emagrecimento, é comum pensarmos sempre em aumento do gasto calórico advindo da atividade física. Porém, está cada vez mais claro que o papel do exercício vai além do gasto calórico, levando também a alterações importantes do ponto de vista metabólico (Lambert, 2018), o que pode nos levar a questionar o real peso do impacto da atividade física no aumento do gasto calórico e a que custo isso tende a acontecer. Não estou querendo dizer que o aumento do gasto calórico via exercício físico não é importante, pelo contrário, mas parece haver uma limitação para que alcancemos certos níveis de gasto energético total diário, principalmente mantendo a saúde cardiovascular, metabólica e musculoesquelética. Trabalhos recentes vêm mostrando tal hipótese (Pontzer, 2018; Pontzer, 2015) através de um modelo denominado Constrained Total Energy Expenditure, em tradução livre: Gasto Energético Total Restrito. Tal modelo avalia, via gasto calórico diário, as relações com a saúde de uma maneira geral, o que, obviamente, passa pelo controle da obesidade. Portanto, talvez seja a hora de começarmos a entender os desafios do emagrecimento não somente por uma questão matemática de gastar mais energia do que se consome, embora não esteja aqui descartando sua atuação no processo. Apenas chamo a atenção do que parece ser uma regra para tudo na vida: dificilmente encontramos uma causa única para um problema, ou seja, há sempre questões multifatoriais, e o emagrecimento não parece ser diferente. Assim como vem sendo mencionado em relação à dor lombar, perder peso talvez mereça um olhar biopsicossocial.

 

Mas, ao avaliarmos as respostas ao exercício físico do ponto de vista biológico, verificamos benefícios múltiplos e que nos levam à melhora da aptidão física de uma maneira integral: ganhos de força; melhora da saúde cardiovascular; aumento da mobilidade e melhora da composição corporal talvez sejam os principais. São essas respostas ao exercício físico que nos levam muitas vezes a afirmar que ele é remédio, um conceito talvez equivocado, pois na verdade as respostas aos estímulos físicos são uma capacidade que o organismo humano ganhou ao longo de milhões de anos de evolução e que permitiu que nossa espécie chegasse aos dias atuais. Este conceito pode ser bem entendido no modelo de capacidade adaptativa proposto por Raichlen and Alexander (2017) ou, segundo a descrição de Lieberman (2015), como uma capacidade biológica de se ajustar à demanda, e que falha em se desenvolver normalmente na ausência de uma demanda normal. Mas este é um assunto que merece um artigo dedicado e, portanto, não será discutido em detalhes aqui neste texto.

 

Voltando ao assunto obesidade, vimos que o exercício físico parece contribuir com o emagrecimento de duas maneiras principais: aumento do gasto energético e melhora do metabolismo. Em relação ao gasto energético, um recente trabalho (Byrne and Hills, 2018) levantou a questão de qual seria a quantidade de exercício necessária para aumentar o gasto energético diário e melhorar a saúde. E sempre que falarmos de melhora da saúde devemos deixar claro que o emagrecimento está inserido no processo.

Uma conclusão dos autores vale a pena destacar, e que são corroboradas por outros trabalhos: Os maiores ganhos em saúde foram obtidos quando os sujeitos saem de um comportamento sedentário para um hábito regular de exercícios físicos de quantidade moderada; algo em torno de 8 a 16 km de caminhada por semana (Paffenbarger, 1986) ou 16 a 32 km de corridas semanais (Schnohr et al., 2015). Ou seja, isso nos levaria a um teto baixo de gasto energético, aumentando ainda mais a importância dos efeitos do exercício sobre o metabolismo e da necessidade de uma mudança de hábitos alimentares, pois devemos sempre lembrar que, embora estejamos aqui tratando do papel do exercício físico, me questiono se realmente é possível emagrecer sem uma mudança adequada nos hábitos alimentares.

Falando ainda do trabalho de Byrne e Hill (2018), eles deixam alguns questionamentos importantes para pensarmos em termos de aumento do gasto calórico diário, cito aqui alguns deles:

- quanto de aumento nós queremos alcançar?

- que dimensão de fitness e/ou saúde nós queremos melhorar?

- estamos levando em consideração os níveis de aderência ao exercício quando nos preocupamos excessivamente com a quantidade?

- estamos levando em consideração as possíveis respostas compensatórias?

 

Mas, o que precisamos destacar de mais importante até aqui, é que o ser humano evoluiu para uma biologia de adaptação à demanda e, portanto, precisa em primeira instância se movimentar. E os benefícios disso podem ser vistos de várias maneiras diferentes, com a literatura atual fornecendo informações preciosas a este respeito. Vejamos o exemplo de um interessante trabalho publicado em 2018 (Sperlich et al., 2018) em que um tempo prolongado sentado era interrompido com um treinamento curto e simples, realizado somente com o peso corporal. Os participantes foram testados em duas situações diferentes, separadas por um mínimo de 72 horas, uma situação controle, em que ficavam sentados por três horas e 6 minutos, e uma situação experimental, na qual após a primeira hora sentados eles realizavam seis minutos de exercícios num modelo baseado nos protocolos de high intensity interval training (HIIT) – não vamos detalhar nem discutir aqui a metodologia utilizada na pesquisa – e depois permaneciam por mais duas horas sentados. A situação em que o tempo sentado foi interrompido por apenas seis minutos de exercícios físicos levou, entre outras coisas, a uma diminuição da razão de troca respiratória, o que levou os autores a assumir como uma melhora do metabolismo; e melhora de alguns aspectos relacionados à percepção dos indivíduos, como uma sensação de aumento do vigor. Estas duas respostas podem influenciar positivamente a saúde e também a produtividade no trabalho. Interessante, não? Os autores ainda levantam uma questão importante dado o pouco tempo consumido durante o protocolo: E se a introdução do protocolo de HIIT ocorresse mais vezes ao dia? Talvez esta sensação de vigor tivesse um efeito mais prolongado, assim como a resposta metabólica, além de promover, em função do aumento do volume de trabalho, um maior gasto calórico total diário, dentro de uma faixa aparentemente benéfica à saúde. Tal interrupção do tempo sentado por mais vezes foi o que fizeram os autores de outro interessantíssimo trabalho que já citei em artigo anterior (Carter et al., 2018). Nele, 15 voluntários precisavam ficar sentados por 4 horas em três situações diferentes. Na situação A foram 4 horas seguidas sem nenhuma atividade; na situação B eles levantavam a cada 30 minutos para fazer uma caminhada leve de 2 minutos apenas; na situação C eles levantavam após 2 horas sentados (ou seja, bem na metade das 4 horas) e faziam uma caminhada leve de 8 minutos. Estas três situações eram realizadas em dias alternados e de forma aleatória. A situação em que uma caminhada de 2 minutos era realizada a cada 30 minutos mostrou os melhores resultados para medidas de fluxo sanguíneo cerebral. As respostas destes trabalhos mostram a importância da atividade física e de não ficar muito tempo sem MOVIMENTO, independentemente do objetivo de emagrecimento, que pode ser uma resposta, um “efeito colateral” de se mover mais e sempre.

 

 

Referências:

Carter, SE et al. Regular walking breaks prevent the decline in cerebral blood flow associated with prolonged sitting. J Appl Physiol 125: 790–798, 2018.

 

Lambert CP. Exercise training alters the glycemic response to carbohydrate and is an important consideration when evaluating dietary carbohydrate intake. J Int Soc Sports Nut 15:1-2, 2018 – Letter to the editor.

 

Lieberman DE. Is exercise really medicine? An evolutionary perspective. Curr Sports Med Rep 14:313-319, 2015.

 

Paffenbarger RS et al. Physical activity, all-cause mortality, and longevity of college alumni. N Engl J Med 314:605-613, 1986.

 

Pontzer H. Energy constraint as a novel mechanism linking exercise and health. Physiology 33:384-393, 2018.

 

Pontzer H. Constrained total energy expenditure and the evolutionary biology of energy balance. Exerc Sport Sci Rev 43:110-116, 2015.

 

Raichlen DA and Alexander GE. Adaptive capacity: an evolutionary neuroscience model linking exercise, cognition, and brain health. Trends in Neuroscience, In Press. 2017.

 

Schnohr P et al. Dose of jogging and long-term mortality. J Am College Card 65:411-419, 2015.

 

Sperlich B et al. Prolonged sitting interrupted by 6-min of high-intensity exercise: circulatory, metabolic, hormonal, thermal, cognitive, and perceptual responses. Frontiers in Physiology 9:1-10, 2018.

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